domingo, 11 de maio de 2008

Fichamento: BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998. Capítulo “Singularidade e normalidade do holocausto”.

O autor inicia seu texto elucidando a dificuldade de compreensão do holocausto visto sua monstruosidade, ao mesmo tempo em que afirma que a nossa própria civilização ocidental foi que tornou tal fato incompreensível. Ao afirmar que as instituições sociais fogem ao nosso controle prático e mental, amplia-se a discussão do assunto além dos limites acadêmicos. Aspectos da civilização que tornaram o holocausto possível ainda estão por aí, o que não elimina a possibilidade de uma reincidência. Bauman chama a atenção, de uma forma até irônica, à ilusiva segurança de nossa “civilização superior”.

Deve-se, primeiramente, retirar o caráter de acidente histórico pertencente a este genocídio que ocorrera de forma tão sistemática e racional. Ao longo do capítulo, percebe-se que “se havia algo em nossa ordem social que tornou possível o holocausto em 1941, não podemos ter certeza de que foi eliminado desde então” (Bauman, página 109). O que não se pode esquecer é que o sistema moderno é poderoso e influenciador, e não há poder ético-moral mais alto que o Estado.

As verdadeiras causas da preocupação que giram em torno do holocausto são que as normas e instituições da modernidade o tornaram possível e, além do mais, nota-se a ineficiência das redes de controle e equilíbrio que seriam fruto de um processo dito civilizador. Assim, “vivemos num tipo de sociedade que tornou possível o holocausto e que não teve nada que pudesse evitá-lo” (Bauman, página 111), o que atribui ao estudo de tal fenômeno a possibilidade de saber até onde o mesmo pode reincidir ou não.

O holocausto é algo singular na medida em que sua efetivação contou com aspectos tipicamente modernos, e foi superior na medida em que tal sociedade o institucionalizou. Um genocídio frio, completo e sistemático só foi possível com base em uma moderna sociedade racional. “O assassínio em massa contemporâneo caracteriza-se, por um lado, pela ausência quase absoluta de espontaneidade e, por outro, pelo predomínio de um projeto cuidadosamente calculado, racional” (Bauman, página 114). O genocídio moderno é único visto que segue um propósito, onde tal etapa visa um fim maior, é um elemento de engenharia social que visa produzir um ordenamento social segundo um projeto cultural tipicamente moderno, onde se almeja um arranjo perfeito das condições humanas. O que há é uma “intervenção consciente” a uma sociedade perfeita. O mundo moderno possui um anseio por uma ordem melhor, mesmo que esta seja necessariamente artificial. A sociedade se molda e se constrói de maneira mecânica, e o genocídio através do holocausto trata-se de uma etapa a ser cumprida, visando um fim maior (a “sociedade perfeita”). Nas palavras do autor, “o holocausto é um subproduto do impulso moderno em direção a um mundo totalmente planejado e controlado (...)” (Bauman, página 117).

Segundo Bauman, a peculiaridade do holocausto que o torna único depende de dois fatores: o fato de ser moderno e por trazer à luz elementos da modernidade que normalmente seriam mantidos à parte. O importante é ressaltar a importância de certos mecanismos sociais na busca por um sonho modernista de uma sociedade perfeita, que servem como um meio de silenciar, ou até mesmo neutralizar, certas inibições morais que fariam com que as pessoas evitassem uma resistência a este mal. Aos poucos os homens se armam com “sofisticados produtos técnicos e conceituais da civilização moderna” (Bauman, página 119). Percebe-se que não há um caráter geral de não-violência existente na civilização moderna (tal caráter torna-se pura ilusão), o mesmo não passa de um “mito legitimador” (nas palavras do autor). Enquanto a qualidade de pensamento se torna mais racional, o teor destrutivo eleva-se simultaneamente.

Bauman aponta para uma reutilização da violência ao longo do processo civilizador. A violência não deixa de existir, porém, é utilizada através de outros diversos canais de atuação. Tais impulsos acabam gerando uma concentração desta mesma violência, visto que ela passa a atuar de forma mais politizada, racional e sistematizada (ampliaram-se os métodos coercitivos através de um Estado mais burocrático). Vê-se que tal propósito só foi efetivado através de uma especialização, resultando em um “aperfeiçoamento técnico”. A eficiência deste sistema tem como base um Estado burocrático e técnico, e a partir do momento em que a violência é vista sob uma visão mais técnica, torna-se “livre de emoções e puramente racional” (Bauman, página 122).

Substitui-se então uma responsabilidade moral por uma técnica, e tal atitude é fortalecida pela divisão hierárquica do trabalho, que distancia as pessoas de um resultado final e coletivo. Uma hierarquia burocrática dá margem ao não conhecimento pleno dos efeitos, demoniza-se então as ações à medida que tal divisão torna-se funcional (há uma distância entre o participante e a tarefa a ser executada, substitui-se o moral pelo técnico). Ao se fragmentar um processo, transforma-se a consciência em algo muito irrelevante. Em suma, o autor defende que tal “substituição da responsabilidade moral pela técnica seria inconcebível sem a meticulosa dissecação e separação funcional das tarefas” (Bauman, página 125). Padrões morais tornam-se irrelevantes frente a intenção de um sucesso técnico, fruto este de uma operação burocrática.

A ação burocrática efetiva também é responsável pela desumanização dos objetos e ações, ligados essencialmente a uma tendência racional de uma moderna burocracia. Há uma perda de identidade, resultante de um gerenciamento puramente burocrático. Segundo a opinião do autor, “a conclusão geral é que o modo de ação burocrático, tal como desenvolvido no curso do processo civilizador, contém todos os elementos técnicos que se revelaram necessários à execução das tarefas genocidas” (Bauman, página 128).

Outra discussão pertinente apresentada por Zygmunt Bauman é quanto ao aspecto “institucionalista” ou “funcionalista” do holocausto. O genocídio adquiria uma dinâmica e uma mecânica próprias, onde também deve se somar uma política expansionista. Em suma, o autor conclui que a burocracia tornou possível esta ação genocida, onde a intenção final era um amplo projeto de uma ordem social melhor, construído racionalmente.

Sobre a sociedade moderna (e, consequentemente, civilizada), Bauman converge com o historiador Norbert Elias em certas opiniões, principalmente na que se refere ao fato de tal sociedade reunir recursos à criação de centros de violência em novas locações de seu sistema social. Assim, a vida cotidiana fica completamente livre à violência, que passa a residir nas margens da sociedade (há um desaparecimento da violência no horizonte da vida diária, o que reflete ainda mais as tendências centralizadoras e monopolizadoras do poder moderno). Além do mais, tal governo estende seu apoio às instituições científicas e religiosas, em busca de gratidão e cooperação por parte destas. Vê-se, como o autor quer demonstrar, que a própria civilização moderna não ergueu barreiras contra as barbáries que ela mesma cometeu.

O que possibilitou que o avanço de tais idéias resultasse na monstruosidade do holocausto foi sem dúvida, segundo o autor, o colapso da democracia, que resultou no desmantelamento de uma ordem social mais ampla. As condições modernas tornaram propícias a emergência de um Estado pleno de recursos, que teria força no comando político e na administração. Percebe-se a modernidade como uma era de ordenamento artificial e grandes projetos sociais. A essência da atitude moderna repousa na “melhoria da realidade”. Concluindo, o autor diz que “cada passo no sentido do enfraquecimento das bases sociais da democracia política torna um pouquinho mais possível um desastre social na escala do holocausto” (Bauman, página 140).

Um comentário:

Laís ♥ disse...

vc salvou a minha vida com esse fichamento!