quarta-feira, 11 de junho de 2008

Resenha: CARVALHO, José Murilo de. “Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi”. São Paulo: Companhia da Letras, 1987.

A importância acadêmica das pesquisas do historiador José Murilo de Carvalho fazem um contraste imenso com seu texto apresentado no livro “Os bestializados: o Rio de janeiro e a República que não foi”. A primeira impressão que tive foi que abriria mais um livro chato e monótono sobre algo a respeito da história de nosso país, bem típico de alguns historiadores que ficam tanto tempo isolados pesquisando em arquivos que parecem esquecer a arte da boa escrita, no entanto, a surpresa maior é a maneira como José Murilo de Carvalho consegue escrever um clássico da historiografia brasileira de forma simples e dinâmica, ao mesmo tempo em que expõe sua tese principal de maneira fantástica. Não se trata de um livro para os estudiosos das ciências humanas somente, mas sim algo essencial a quem se considere cidadão brasileiro.

O autor apresenta uma visão da cidade do Rio de janeiro bastante ampla ao leitor, dando ênfase a alguns problemas de cunho político, econômico e social, fruto estes da instável transição do Império para a República. A possível inexistência de um povo, no sentido político da palavra, é o que dá impulso ao trabalho do pesquisador. O autor, no entanto, reforça a idéia de que a diversidade da população do Rio de Janeiro, que crescera drasticamente em pouco tempo devido ao fato do Estado ter se tornado capital, garantiria a existência de diversos povos, e não de um único. Assim, diferentes opiniões e visões fazem parte da política no início da república, e, além do mais, pode-se também dividir a política entre os que participam dela ou não, o que José Murilo de Carvalho chama de ativos e inativos politicamente. No cenário político que acabara de se formar as eleições não serviam como instrumento de representação popular, pois eram negadas à esmagadora maioria da população. Desta forma, o autor tenta apresentar um ambiente político que não era propício à participação popular, e que por isso resultou na utilização de outros canais de atuação por parte do povo. Portanto, de indiferente à política a população do Estado fluminense não tinha nada, o que ocorria é que faziam à sua maneira a forma de agir politicamente, de expressar a cidadania, às vezes através de modos que contradiziam o que se esperaria moralmente de uma atuação política de verdade.

Essa informalidade gerou uma multiplicidade de ideologias, trazidas estas da Europa, que eram divulgadas na sociedade fluminense através da imprensa jornalística, de manifestações, de festas populares, entre outras maneiras. Tais meios representaram o modo como a população se conscientizou politicamente, segundo seus próprios costumes, seu dia-a-dia. É preciso ver que uma participação política ativa segundo os moldes europeus não vai estar presente nas práticas do povo, e é isso que o autor consegue mostrar através de uma série de exemplificações destes canais alternativos de atuação política. A população não é alheia ao que acontece na capital federal, ela só participa de uma maneira não-formal, e isso é fruto, como nos mostra o José Murilo de Carvalho, da própria República, que não permitiu a formação de cidadãos pois além de limitar o eleitorado, eliminou também do Estado a obrigação de fornecer educação ao povo. Tais medidas evidenciam a instável relação entre o governo e a população, que resulta no surgimento de uma cidadania à maneira do povo, segundo o meio social em que vivem.

O ponto alto do livro de José Murilo de Carvalho é o capítulo em que trata a respeito da revolta da Vacina. Este incidente seria a melhor expressão possível da existência de diferentes acepções acerca do que seria a cidadania, demonstrando também uma consciência política em se fazer ativa politicamente. Ocorre uma oposição à “Estadania” (termo do autor) imposta pela máquina governamental, pois através desta somente os que contribuíam seguindo os interesses do regime republicano é que seriam dignos de receber o epíteto de cidadão. Percebe-se então que nunca um humilde trabalhador estaria inserido no ambiente político proposto por essa frágil República.

A revolta, como enfatiza o autor no livro, não possuiu uma causa única. Ao contrário, foi fruto de uma multiplicidade de fatores, o que caracteriza as diferentes formas que a população via como vias de participação política, ou seja, meios diferentes da idealização do que seria a cidadania em si.

Neste caldeirão de pensamentos e ações que marcou o Rio de Janeiro em fins do século XIX e início do século XX é que José Murilo de Carvalho conclui a inexistência de um povo bestializado aos acontecimentos políticos vigentes. Participações políticas formais nunca haveriam de existir, pois o próprio governo se encarregara de limitar tal ato através do voto restrito aos alfabetizados, além do uso de outros aparatos burocráticos. Porém, a Revolta da Vacina mostra como outros meios de se exercer a cidadania são possíveis, muitas vezes maneiras estas muito díspares umas das outras, mas que servem para elucidar a tese central do historiador: um regime republicano não veio a excluir o povo da via política, pois este encontrou outros canais para exprimir seus anseios, suas opiniões, ou seja, sua voz política ativa. Em suma, a consciência de nos encararmos como cidadãos existe em todos nós, e não é a máquina estatal que nos limitará, mesmo que não se transmita tais idéias da maneira de atuação vigente, deve-se expô-los da forma como melhor convir, ou da forma em que se é possível.

José Murilo contraria muitos historiadores que defendem a população de inícios da República como apática do ponto de vista político, não constituindo assim um povo em si. Em meio às idéias apresentadas pelo autor em seu livro, torna-se difícil de sustentar tais teses sobre esta possível apatia popular. Os arranjos entre o governo e as oligarquias, em nome da manutenção do poder, excluíam as massas da participação política, que por sua vez foram obrigadas a se organizarem da maneira como lhes fosse possível, estabelecendo, assim, mundos paralelos. Bestializado, como nos mostra o autor, é aquele que se guiava pela aparência do formal, pois a realidade se escondia atrás dessa formalidade. Logo, não há uma falta de intervenção do povo no seio político, e a Revolta da Vacina serve para elucidar a existência de um sentimento que defendesse a honra e os direitos do povo, mesmo que fossem tão heterogêneos o que se entenda como cidadania ou participação política.

Seja do lado da elite, Estado ou do povo, grandes nomes se fazem nesta época de intensa movimentação no Rio de Janeiro. E eis um dos grandes trunfos da obra de José Murilo de Carvalho, pois ele não mede esforços para citar diversos nomes que dão credibilidade à história sobre o início da Primeira República. Recorrendo a jornais do período, sejam escritos pela elite ou pelo povo, o autor busca detalhes mínimos para enriquecer sua obra. Percebe-se que não foram poucas as visitas aos arquivos públicos fluminenses, mas que tamanho trabalho foi recompensado pela magnitude que a obra alcançou.

11 comentários:

Daniela Ferpe disse...

Muito útil na faculdade. Obrigada pela sua contribuição!

Anônimo disse...

Também sou acadêmico na faculdade de História (5 período) e precisei ler este livro na cadeira de Brasil III. Sua resenha foi muito útil para entender mais o livro, pois alguns assuntos e partes do livro estavam vagos!!!!!
Parabéns!!!

Daniele Teles disse...

Esse livro é simplesmente surpreendente. Tratar de um assunto e um período tão rico de acontecimentos, e torná-los interessantes ao leitor é capacidade para poucos historiadores, que infelizmente estão imersos num academicismo triunfante.
Muito legal sua resenha.

Anônimo disse...

também sou acadêmica do 7 periodo de história pela uea nomunicipio de tefé, e gostei muito da sua resenha, realmente o livro nos leva a uma reflexão sobre o exercicio da cidadania e a importancia da participação popular....muito bom ...parabéns...raydiene

lucas disse...

Sou acadêmico de história no 7 período da universidade estadual vale do acaraú em sobral-Ce e vou fazer uma prova sobre este livro. E espero que esta resenha me ajude bastante.

Guta disse...

Ótima sua resenha,
;D

Priscila disse...

Muito boa a resenha...realmente o Zé Murilo escreve de forma crítica e seus livros são uma leitura agradável, o que permite também o acesso aos nao-acadêmicos... boa percepção...

Silmara disse...

Muito boa a sua resenha. Sou estudante do 7º periodo de história da UFMt, e estou lendo O murilo de Csrvalho para a monografia, ele é muito bom para se entender a politica do Imperio e da republica. Parabéns

Thiago disse...

Sou acadêmico de história 4° sem, ucdb (ms), na verdade nÂo cheguei a estudar história do brasil ainda, li Os bestializados por recomendação de amigo, Murilo de Carvalho faz uma incrivel releitura de uma Rio de Janeiro em ebulição, bela resenha cara, parabéns... Você leu A Formação das Almas?

Anônimo disse...

Realmente, também gostei muito da maneira como o autor descreve tudo. E sua resenha me ajudou a perceber mais detalhes do livro. Obrigada.

Anônimo disse...

Olá, tudo certo?
Fiquei muito interessado em manter contato com você... E também explora o canal.
E já aproveitando, quero 'parabenizar' você pela sua valiosa resenha...