quarta-feira, 4 de junho de 2008

"História de vida: uma percepção historiográfica no dia-a-dia". Texto de Vitor Lopes Moreira.

Recordo-me muito bem do meu primeiro contato com a História, quando passei a ter esta disciplina no colégio, introduzida à grade colegial na quinta série do ensino fundamental. Fiquei impressionado com a gama de informações e conhecimentos que a mesma me presenteou. Achava-me em pleno contato com mundo, em pleno contato com a verdade, e tudo isso foi resultado do meio como a História era ensinada no colégio.

Uma História puramente factual, linearmente marcada no tempo, detentora de todas as certezas, e presa em suas datas. Olhando a objetividade deste tipo de História ensinada, até parece a História científica1 proposta por Ranke. Porém, esse método de ensino, adotado enquanto cursei o ensino fundamental e médio, não faz mais que tornar a História irrelevante no espaço em que a mesma ocupa, tanto em nosso cotidiano quanto em nosso ambiente cultural. Esse tipo de História que esteve presente na maior parte da minha vida encontrava-se, embora eu não soubesse na época, afastada de sua principal finalidade: “levar o homem a refletir sobre as formas de vida e de organização social em todos os tempos e espaços, procurando compreender e explicar suas causas e implicações2.

Passei a conhecer a “outra face” da História a partir do momento em que ingressei na faculdade (mais especificamente, quando entrei em contato com o estudo da teoria da História). Confesso que sofri um choque quando iniciei os estudos de metodologia da História. Era difícil aceitar essa outra visão da História, conflitante e dinâmica, muito diferente da qual eu estava acostumado. Foi preciso desconstruir tudo o que eu tinha aprendido até aquele momento sobre o que era História. Hoje em dia, vejo que o termo “domesticado” é bem melhor empregado do que o termo “acostumado”, logo, eu me pergunto: Por que essa domesticação aos alunos para que estudem uma História que no futuro não virá a lhes servir para nada? Sem um pingo de reflexão ou compreensão, esse método aplicado nas escolas limita intelectualmente os alunos.

Digo isto porque eu fui um dos que sofreram um “baque” imenso ao entrar em contato com esse novo saber, talvez não o sofresse se não escolhesse a disciplina História para me graduar, porém, provavelmente continuaria cego ao que realmente ocorre no mundo devido a uma limitação causada por uma infinidade de datas e nomes próprios que não iriam servir de nada para o meu desenvolvimento intelectual. Creio que as datas são importantes para nos situarmos temporalmente, porém, dedicar-mos somente à essa forma de estudo nos ocultaria o que de mais extraordinário há: as formas de pensar, os ideais, os sentimentos, entre outras coisas.

Quando o meu horizonte histórico se ampliou (a partir do momento em que entrei na faculdade), vi que a verdade está muito além do que eu imaginava (isto, é claro, se eu ignorar o possível fato da verdadeira e única verdade não existir, o que é uma possibilidade). Assim, se não teria como saber a verdade sobre o passado, então, por que continuar procurando por elas? Concordo com a opinião de Keith Jenkis3 a respeito da busca pela verdade, pois considero essencial que esta perseguição a um ideal é o que deve prevalecer.

Algo que também creio que está presente em nossa natureza é a dúvida, a incerteza. O pensamento cético4 é fundamental, e deve ser estimulado (o que não acontece nas escolas). Adota-se uma postura, nessas instituições de ensino, de que o que se está trabalhando seja o verdadeiro, o imutável, mesmo se sabendo que não possuem argumentos, e muito menos bases, para comprovar isso.

Talvez eu seja impossibilitado, no futuro, de ensinar a História tal qual ela é, devido às necessidades e aos interesses das pessoas que irão me empregar em suas instituições de ensino. Porém, lutarei para que eu possa passar aos meus alunos a História reflexiva, dinâmica (com base em fatos sim, mas não totalmente factual). Apresentar os fatos como uma cadeia de acontecimentos cristalizados está fora dos meus planos, e, tenho que admitir que o estudo da teoria da História contribuiu para que eu pensasse dessa forma diferente.

O estudo da metodologia histórica não contribuirá apenas para minha futura vida acadêmica ou profissional somente, mas sim para o meu modo de viver como um todo. Hoje em dia, por exemplo, eu abro as páginas do jornal e as leio tentando entender todo o contexto em que uma determinada notícia está inserida, buscando entender o que o autor da matéria tentou passar ao público, e, não aceitando assim de imediato o que está escrito, sentindo uma necessidade de questionamento e reflexão quase que naturais. Outro exemplo é que quando fui ler a literatura de Gabriel García Márquez5, recentemente, pude perceber a noção de tempo cíclico que o autor tenta passar aos leitores. Achei interessantíssimo, pois, creio que se eu não estudasse a teoria da História, essa noção de tempo do autor passaria despercebida por mim, além, também, do motivo pelo qual ele tenta empregar esta idéia em seu livro.

O estudo da teoria da História auxilia também no que diz respeito às outras disciplinas oferecidas pelo curso de História nas faculdades. Ao estudar a História da América , da África, ou afins, uma certa “bagagem experencial”, que é dada através da metodologia, é indispensável, pois, a partir daí o aluno se sentirá mais seguro para não cometer erros, como o anacronismo por exemplo. A noção de que a História possui um tanto de subjetividade deve ser levada em conta ao se estudar outras disciplinas. Não se deve exaltar-se, esquecendo da objetividade, que por menor que haja na História, deve existir. Não devemos pensar qualquer coisa a respeito de qualquer época, pois tudo depende de seu contexto histórico. Desta forma, a teoria serve para impor estes e outros limites.

À leitura do autor alemão Jörn Rüsen6, notei que o caráter reflexivo e o conhecimento só surgem a partir do momento em que o historiador faz uma auto-reflexão acerca de seu trabalho e de sua função na sociedade. A auto-reflexão é o início do interesse para os “produtores de história” (termo usado por Keith Jenkis, o qual gostei muito), sendo assim, compartilho a mesma idéia do autor: que a teoria da História contribui para formar a capacidade de reflexão. Os historiadores, durante seus estudos e pesquisas, devem levar em conta e pensar a respeito do objetivo de sua prática profissional. Deste modo, as fontes não dizem por si sós, e o interesse no conhecimento histórico surge a partir de que a formação de certos tipos de idéias visa suprir uma certa carência de orientação no tempo.

A meu ver, a teoria da História visa não somente explicar o que é a História em si, mas também, como o ofício do historiador se insere nas relações de poder em qualquer em qualquer formação social de que ele se origine.

Concluindo, o estudo da teoria da História visa, principalmente, mostrar que a mesma não se preocupa em rememorar o passado somente. Visa muito mais além, mostrando que a História se trata de um discurso cambiante e problemático (tendo como pretexto um aspecto do mundo, o passado) produzido por historiadores (cujas cabeças e o modo de pensar estão no presente), que trocam seu ofício uns com os outros e cujos produtos, uma vez colocados em circulação, encontram-se sujeitos a uma série de usos teoricamente infinitos, mas que na realidade correspondem a uma infinidade de bases de poder que existem naquele determinado momento, e que estruturam e distribuem ao longo de um espectro do tipo “dominante” ou “marginal” os significados das História produzidas.

Notas:

1) O contraditório é que este tipo de História, ministrada no colégio, não tinha nada de científica pelo simples fato de não haver contato com as fontes (o que Ranke propunha primordialmente), e sim, somente com uma determinada historiografia. O que qualquer autor dissesse deveria ser encarado como verdade única e imutável. E, indo contra suas formações universitárias, os próprios professores em sala de aula guiavam-se exclusivamente pelos livros didáticos, não estimulando assim os questionamentos e as dúvidas. Apresentavam somente os fatos, as certezas, sem direito às dúvidas, inibindo assim o surgimento de um pensamento cético, crítico. O que ocorria era a imposição de uma certeza, de uma verdade. Assim, ao longo do meu ensino fundamental e médio, não pude desenvolver um pensamento crítico, pois este fora abafado por uma História dita verdadeira, imposta aos alunos à força.

2) Esta definição para a finalidade do estudo da História encontra-se no livro “O que é História”, de Vavy Pacheco Borges. Segundo esta autora, presente e passado estão indissociavelmente ligados na História, tornando assim o ensino e o estudo dessa disciplina, imprescindíveis para o perfeito entendimento dos tempos modernos. Para a autora, o passado visto por si mesmo, o passado pelo passado, tem um interesse muito limitado, e, por vezes, nulo. A História que deve existir majoritariamente não deve visar a explicação desse passado distante e morto, e sim, contribuir para a explicação da realidade em que vivemos. Assim, a História, sendo uma forma de conhecimento da verdade, está sempre se constituindo, pois o conhecimento que ela produz nunca é perfeito ou acabado.

3) Keith Jenkis, em seu livro “A História Repensada”, diz que sem a verdade, certas pretensões (objetividade, essência, essencial, imparcialidade) que determinam as coisas de uma vez por todas, ficariam impotentes. Segundo o autor, a objetividade é um fator importantíssimo para que se possa haver a discriminação entre relatos rivais envolvendo um mesmo problema.

4) Segundo Plínio Junqueira Smith (em seu livro: “Ceticismo”), para que uma pessoa conheça de fato algo, três condições devem ser cumpridas. Em primeiro lugar, a pessoa precisa crer naquilo que diz, ou seja, ela precisa acreditar no que está dizendo, pois, alguém pode muito bem dizer uma coisa que de fato é verdadeira, mas que não acredita. Assim, essa pessoa não sabe o que afirma. Seguido disso, o autor diz que obviamente, nossas crenças podem ser falsas – e uma crença falsa nunca é conhecimento. Então, a segunda condição necessária para o conhecimento é que a crença seja verdadeira. Por último, quando um indivíduo tem uma crença verdadeira, ele deve ser capaz de dar uma boa razão para a sua crença, deve ser capaz de justificá-la adequadamente. Portanto, Plínio Junqueira Smith afirma que uma pessoa sabe alguma coisa quando cumpre essas três condições: (1) ela precisa crer no que diz (ou pensa); (2) sua crença tem que ser verdadeira; (3) ela precisa dar uma boa razão ou justificar adequadamente a sua crença. Assim, o autor define o conhecimento como uma “crença verdadeira justificada”.

5) Em seu livro, “Cem anos de solidão”, Gabriel García Márquez, através de um personagem (a matriarca da família Buendía, que se chama Úrsula), tenta fixar a idéia de tempo cíclico nos leitores. Úrsula vive evocando que o tempo volta a se repetir devido à semelhança entre os integrantes de sua família. As características de uma pessoa estão, muitas das vezes, presentes em seu sucessor. A própria genética atua como o fator que torna o tempo a agir ciclicamente. Talvez o autor adote essa idéia somente como a opinião de seu personagem, ou, que a crença de seu personagem seja a sua própria.

6) Em seu texto “Tarefa e Função de uma Teoria da História” (capítulo 1 do livro “Razão Histórica. Teoria da História: os fundamentos da ciência moderna”).


4 comentários:

Diogo Barreiros Estevam disse...

Vitor, o texto possui apenas três folhas, consegui depois de muito esforço intelectual "pari" três páginas. O seu deu quantas laudas, um parágrafo... rsrsrsrs.
Ah, finalmente um comentário no meu Blog, valeu.

Priscila disse...

Nossa, tive a mesma percepção ao entrar na faculdade...
E olha que ainda tow no 1º período, hein...
Mas mesmo assim, a mudança de ensino da história é gritante.
Mudança? Bem... talvez não tenha existido efetivo ensino da história antes de entrarmos no mundo da graduação neah.
Talvez se mostrassem já no ensino fundamental o real sentido de estudar história (como principal foco reflexivo), mais alunos gostariam dessa matéria fascinante.
É uma pena que nem todos terão acesso ao que está sendo vivenciado por nós.
Contudo, como vc já disse, ainda há muito interesse em 'bestializar' as novas gerações.
=/

A propósito... um bom livro que discute a principal tese do seu post: "Que é história?" (Edward Hallet Carr)
Se puder dar uma olhada em algum resumo ou no próprio livro... acho que vai se interessar.
Adorei o blog, beeijo.
Priscila.

Ricardo Castro disse...

Encontrei casualmente o seu blog e gostei muito do que li. Parabéns pela iniciativa !

Um abraço blogueiro,

Prof. Ricardo Figueiredo de Castro

Vavy disse...

Vitor

Vc não sabe, mas em seu texto, cita uma mãe - eu - e seu filho caçula, Plinio Junqueira Smith!

adorei saber que estamos unidos nesse seu texto...

E além do mais, trabalho agora na biografia do cineasta Ruy Guerra, que fez alguns roteiros com seu amigo Garcia Marquez, que vc também cita no texto.

achei tanta coincidencia que quiz lhe contar! abraços

Vavy pacheco Borges