sexta-feira, 22 de abril de 2011

E sobre essa semana de três dias. Autor: Vitor Lopes Moreira.

Mais uma semana chega ao fim. Mas essa termina no meio, já que logo por cima vem o feriado, transformando dias úteis (que seriam trabalhados das nove às dezessete) em preguiças que podem durar um dia inteiro, ou também em farras que podem invadir inclusive as madrugadas. Essa semana foi realmente tensa. Não, não aconteceu nada de especial. Não ganhei na loteria (porque me esqueci de jogar). Na verdade eu gastei o dinheiro destinado ao jogo com bebidas, ou seja, troquei um vício (que poderia me gerar lucro) por outro (que poderá me dar uma cirrose). Também não me apaixonei nesta semana. A respeito da segunda opção, confesso que olhei de maneira atenciosa para alguém do sexo oposto no trem quando ia para o centro da cidade. No entanto, fiz isso tentando chamar sua atenção para que assim ela viesse me vender uma paçoca. O que fiquei na dúvida era se eu queria paçoca ou jujuba.

Resolvi começar a semana tirando aquele antigo fio branco que perdurava na minha barba faz tempo. Usei a pinça, já que ele é filho único ainda (que bom). Senti-me até mais jovem. Eu o mantinha como charme, mas descobri que um fio somente não produzia o efeito intelectual que eu esperava. Fui até dar aula com mais disposição. Mas foi aí que notei que realmente envelheci. Não entendi quando um aluno chamou o outro de “pipoca doce” na sala de aula. Mas tarde, pedi para que me explicassem, e assim descobri que o termo significa viado (é o com “i” mesmo, e não o com “e”) na gíria escolar contemporânea.

De onde inventaram isso? Juro, não consigo mais ver uma carrocinha de pipoca e não imaginar o pipoqueiro vestido todo de rosa cantando I Will survive a plenos pulmões. Não pude me conter, e minha mente insana começou a pensar nas variações que poderiam surgir: pipoca doce com leite condensado (essa faz doce mesmo, chega a ser grudenta); com granulado (fiz a equivalência de granulado à purpurina, surgindo assim algo que caracterize alguém ao estilo Priscila: a rainha do deserto); metade doce, metade salgada (indecisa ainda, em cima do muro, que não saiu do armário); e outras e outras variações doentias que só a minha imaginação perturbada consegue criar quando na verdade eu deveria estar concentrado fazendo algo útil (agora, por exemplo, eu deveria estar estudando, e não aqui postando).

Aí então notei que estava ficando velho mesmo. Culturalmente falando. Não era o fio branco na barba que me abria os olhos para o tempo que passava, mas sim as gírias que eu já não entendia os significados, além dos costumes que não foram criados por minha geração, mas por uma mais nova (esta, bem colorida e de franjas, ao estilo restardado de ser).

As aulas no mestrado também tornaram esta semana especial. O mestrado é aquele lugar onde o ego de algumas pessoas é quem elabora o pensamento, reproduzindo-o através da voz. Então elas tentam impressionar, citar referências de cor (que na verdade foram decoradas na noite anterior), relacionar autores que às vezes nem leram (ou só o resumo no Google), entre outros artifícios que não merecem o epíteto de acadêmicos. Enfim, trata-se de um show intelectual (e às vezes de falcatrua) a parte.

Em meio a um debate, acusaram-me de que meus estudos de pesquisa de dissertação eram incipientes. Fiquei revoltado, não acreditei quando disseram. A primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi procurar o significado da palavra incipiente no dicionário. E foi aí que descobri que a palavra só assusta e intimida, quando na verdade não expressa muita coisa. O que ocorreu é que ela foi utilizada de uma maneira teatral tão eficaz que quase acreditei que ela representasse uma ameaça. Mas o susto passou. O que ficou da lição foi que um dia ainda quero aprender a falar colocando nas palavras significados que elas não possuem, utilizando apenas o tom de voz (aos gritos) para isso.

Mas antes de saber o significado do termo incipiente, estava eu abalado no ônibus, cabisbaixo, triste com a porrada acadêmica que havia tomado. Eis que ouço um som familiar. Daqueles que você queria não conhecer. Sim, era ele, e vinha de uma pessoa específica. Eu caracterizo-a com um nome simples: funkeiro de transporte público.

Este indivíduo entra à paisana, totalmente disfarçado. Às vezes consegue-se identificá-lo pelo boné colorido, ou pelo excesso de cordões pendurados no pescoço. Parece que ele se sente incomodado com o silêncio do ônibus, sacando assim sua arma (o celular com mp3). E é aí que o show e a falta de educação começam. Quando ele decide cantarolar, acompanhado a letra (existe letra?) da música (usei uma palavra inapropriada, eu sei), aí significa que o resto da sua viagem será um grande sacrifício ao qual você terá que sobreviver. Pensei em à campanha que já existe, e é intitulada de “Doe um fone de ouvido a um funkeiro e faça os outros passageiros mais felizes”. Quantas vezes você, que caso esteja lendo até aqui este texto, não foi abordado por tal figura urbana? E lhe garanto, é pior do que ser assaltado. No assalto, pelo menos o ladrão vai embora. É lógico que desisti de pensar que tal movimento funcionaria já que tais figuras, que não conseguem notar a existência de uma placa dizendo “É proibido ouvir som alto” (bem ao lado do trocador), talvez nem saibam qual seria o uso de um fone de ouvido, e ficassem ali quebrando a cabeça tentando achar uma utilidade para aquilo.

Cheguei esgotado em casa. Nunca um trajeto havia me cansado tanto. Queria morrer. Postei até no facebook: “Quero morrer”. Acho que algumas pessoas interpretaram de maneira errada a frase, e acharam que eu iria me matar, achando que eu estivesse catatônico e com espírito suicida. Imediatamente apareceram vários “fulano curte isso”, “beltrano curte isso”, na tela. Quando mais de sessenta pessoas passaram a curtir, eu decidi que preciso rever minhas amizades. Mas enquanto isso, tiro essas idéias da minha cabeça, como que igual a um fio branco na barba sendo puxado por uma pinça, e relaxo sentado no sofá, ouvindo o bom e velho rock n’ roll. Imagina se eu tivesse gritado ao funkeiro: “Meu caro, esse seu estilo de música é incipiente! Um dia ainda evoluirá para o rock n’ roll”.

Olha, talvez ele ficasse com medo, assim como eu fiquei. Um dia eu ainda aprendo essa arte com as palavras. Talvez o mestrado me ensine. Se não der, aprendo com a vida. Ou com o Google. Nunca gostei tanto que uma semana tivesse só três dias, pois já estava começando a me assustar com o que poderia vir a acontecer nos próximos. Que nosso feriadão não seja como essa semana de três dias.

8 comentários:

Diogo Silva disse...

Parabéns pelo texto, Vitor! Realmente, o meio acadêmico, principalmente na área de História está gradativamente mais povoado de espíritos que armados de palavras levianas, como o "incipente" tentam lançar pedras sobre a pesquisa alheia. Talvez quem lhe tenha dito isto desconheça a raíz latina da palavra incipiente - que seria algo como "ser no início" - e prefiram adotar os jargões estéreis que povoam a Academia.
Quanto ao "funkeiro", me sinto assim quando volto de meu trabalho em Nitéroi, sempre tem um que cruza a ponte com o celular em altos brados. Além deles, também há os pagodeiros, os evangélicos, os que escutam forró e calipso.
Eu não consigo conceber que após um dia de trabalho um ser pense: "Hora de relaxar, vou ouvir 'Calcinha Preta'".
Abraço

leo bento disse...

Bom texto.

Paz, LB!

Leonardo disse...

Pra que esmerar-se tanto em pichar o trabalho dos outros? Se fosse só um comentário pra ajudar, ok, mas essa teatralidade toda é tão vazia que eu suspeito que seu sujeito também seja. As pesquisas de tais indivíduos devem ser um fardo, na verdade, um reflexo da vida pessoal. Por isso não deve tar havido um amiguinho para lhes dizer: tu vai sofrer injustiças, mas não leve adiante, não reproduza esse mal.

Kelly Kristine disse...

De tudo que você escreveu, só me interessa a comentar a respeito de uma, na qual eu convivo diariamente... O maldito Funkeiro do ônibus. Bom, as vezes, tenho uma grande vontade de oferecê-lo um fone emprestado, mas talvez ele não saiba a utilidade (muito má). Mas é uma revolta, e uma falta de respeito com quem quer apenas descansar ou tentar ouvir o seus pensamentos em pé, em um ônibus lotado às 21h da noite.
Ótimo Post, Vitor!

João Gabriel disse...

Gotoso de ler.

Você daria um bom cronista de jornal...

Abraço, camarada.

Tarsila disse...

Olá querido, estou muito feliz em ver seu blog! E até, estranhamente, orgulhosa mesmo sem crer que possa me orgulhar por imaginar que isso seja apenas seu, mas tudo bem,estou mesmo feliz e orgulhosa...rs
Bem, sobre o episódio do mestrado, acho que ele é necessário a todos nós, ainda que injusto e desagradável faz a gente pensar em muita coisa. Uma vez soube de uma conhecida que ao formular uma apresentação para seu curso superior de dança ouviu da professora que aquilo estava "total out" o que a deixou arrasada, mas penso que de qualquer maneira ela cresceu com isso.
Fico pensando que talvez devemos ignorar as aventuras acadêmicas dos outros e nos concentrármos em nós mesmos. Continua com sua habitual disciplina e com seu gosto pela literatura que tudo dará mais que certo. Um grande abraço!

Sulemi disse...

Oi, Vitor, hoje conheci o seu blog, tava procurando uma data de um livro de Antonio Candido e o blog apareceu no Google. Gostei da crônica, por isso fiquei pra te dar uns parabens desde Mexico. Cá a gente nao tem tanto funkeiros, sao ainda incipientes, jeje; mas tem outras "plagas" tanto o mais assustadoras.
Saludos chilangos
S.
P.S.Disculpe meu portunhol salvagem

Vitor Lopes Moreira disse...

jajaja... sin problema .. no es portunhol, tu sabes escribir al portugués muy bien Sulemi. Las plagas sociales, de das ciudades anchas, son las que más me asustan..jaja
bueno que gustaste del blog.
saludos brasileños para tí!